segunda-feira, 16 de agosto de 2010

"Conterrâneos velhos de guerra"


"Conterrâneos velhos de guerra" é um documentário de longa metragem concluído após a edição de setenta horas de material gravado em video, ao longo de vinte anos, que propõe uma nova perspectiva histórica a respeito da construção de Brasília. Dessa vez, a câmera não atua no sentido de potencializar o carisma de Juscelino Kubitschek e nem enaltecer a genialidade artística de Oscar Niemeyer: o protagonista é o trabalhador, possivelmente nordestino, que foi para Goiás apenas com a roupa do corpo e tendo como única bagagem o sonho de trabalhar na construção da nova capital e com isso conquistar a sua dignidade - o chamado candango.

O diretor Vladimir Carvalho constrói o longa de forma extremamente lírica (o que atenua um pouco a cientificidade do gênero, sem com isso agredir a sua credibilidade), usando poesia, planos abertos que chegam a ser épicos ao serem combinados com música clássica e depoimentos dramáticos dos próprios trabalhadores, mas em alguns momentos usa a ironia para denunciar o cinismo de pessoas que, na hierarquia social da construção de Brasília, ocupavam o topo e fingem ignorância ao serem indagados a respeito do regime de trabalho semi escravo ao qual os candangos eram submetidos. Em uma cena, por exemplo, reconhecemos essa ironia quando o diretor questiona um político, após focalizar um livro de história do Brasil, se este sabia que os trabalhadores enfrentavam jornadas diárias de até 16 horas diárias, recebendo como resposta o já conhecido "eu não sabia" (expressão que, aliás, ainda circula muito pela política brasileira).

O documentário, além de promover a reflexão a respeito da questão de como a história que conhecemos pode ser, na verdade, apenas uma versão omissa e reinvindicar uma pesquisa histórica que se concentre também na vida das pessoas comuns, nos seus feitos e visões (afinal, os grandes líderes tem a sua importância, mas não são os únicos que promovem mudanças), ainda discute a questão da divisão desigual do espaço no Brasil, sendo por isso ainda mais recomendável para estudantes de arquitetura.

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