
Hélio Oiticica foi um artista contemporâneo carioca, nascido em 26 de julho de 1937, que se envolveu com várias modalidades artísticas, como pintura, escultura e performance e inspirou-se na lógica anarquista de valorização de uma postura de contestação de valores impostos, pregada por seu avô José Oiticica, professor e filólogo brasileiro, autor do livro O anarquismo ao alcance de todos (1945), para criar obras de arte inovadoras e experimentais.
Sempre conviveu com a arte, pois o seu pai, José Oiticica Filho, era fotógrafo profissional. Além disso, passou dois anos da sua infância em Washington, o que permitiu que ele visitasse alguns dos museus de arte mais bem conceituados do mundo. Assim, a sua aproximação com a arte foi um processo natural e a sua iniciação como artista se deu ainda cedo, quando, incentivado por sua tia, a atriz Sônia Oiticica, começou a escrever e a traduzir peças de teatro, encenadas juntamente com os seus irmãos.
Iniciou a sua trajetória artística no Grupo Frente, formado por Ivan Serpa e seus alunos, que procurava aplicar os conceitos do movimento concretista, de negação à abstração lírica e valorização da racionalidade, nas artes plásticas brasileiras. Na sua primeira exposição, encontram-se pinturas geométricas sob guache e cartão, o que mostra a sua adesão inicial ao Concretismo.

No início dos anos 60, ocorre uma cisão no Movimento Concreto e surge o Movimento Neoconcreto, pois alguns artistas, entre os quais Hélio Oiticica, passaram a contestar a exagerada tendência técnico-científica do movimento e o abandono da poesia, da sensibilidade do artista.
Esse rompimento com a geometria absoluta e a sua aproximação da cultura popular brasileira (passou a frequentar a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira) desencadearam um processo de contestação dos conceitos pré-estabelecidos do que é arte e da relação desta com o indíviduo que culminou na concepção de algumas das suas criações mais geniais e polêmicas.
Entre essas criações, destaca-se o Parangolé, "uma espécie de capa (ou bandeira, estandarte ou tenda) que só mostra plenamente seus tons, cores, formas, texturas, grafismos e textos (mensagens como “Incorporo a Revolta” e “Estou Possuido”), e os materiais com que é executado (tecido, borracha, tinta, papel, vidro, cola, plástico, corda, palha) a partir dos movimentos de alguém que o vista". Com essa escultura móvel, levanta a ideia de que a arte é a interação entre o objeto e o indivíduo e a experiência que essa interação suscita, e não o objeto exposto na parede da galeria que deve ser observado de maneira estática.

Outra obra que eu gostaria de destacar, não por sintetizar as suas ideias de discussão da arte, mas por sintetizar a sua personalidade e porque foi a partir daí que eu conheci o seu trabalho, é a homenagem póstuma a seu amigo de roda de samba, o traficante Cara de Cavalo, assassinado brutalmente por policiais. Em um estandarte, estampou a imagem do Cara de Cavalo com a frase "Seja marginal, seja herói.". O seu protesto foi encarado pela sociedade conservadora da época como uma forma de tornar o crime mais glamouroso. Para mim, é uma homenagem não só ao Cara de Cavalo, como a todos os outsiders - pessoas que procuram viver à margem do que é considerado normal pelo senso comum, simplesmente por não se satisfazerem com a mediocridade do que é tido como normal.

